Em 30/12/2025, um editorial do jornal Folha de S.Paulo reproduziu a narrativa de acadêmicos alinhados a partidos de esquerda que tentam minimizar a ação oposicionista do MDB durante a ditadura militar (1964-1985) . O jornal qualifica o partido como oposição “permitida”, termo desvirtuado por acadêmicos a partir da tese de doutorado da professora Maria D’Alva Kinzo, intitulada “Oposição e Autoritarismo: Gênese e Trajetória do MDB” .
Em 1988, Kinzo transformou sua tese em um livro que serve como principal referência sobre a história do partido; na obra, ela jamais utilizou o termo “oposição permitida/consentida” . No entanto, trabalhos posteriores ao dela utilizam-no e o citam como referência, o que passou a ocorrer a partir dos anos 1990, quando o MDB (ou PMDB) se transformou no principal alvo das esquerdas.
Não são todos os acadêmicos que agem por má-fé, mas é preciso corrigir esse erro sistemático . Em sua tese, a professora da USP e doutora por Oxford utiliza a expressão “oposição legal”, uma vez que a construção do MDB ocorreu conforme as regras impostas para a criação dos partidos, implementadas a partir do Ato Complementar nº 4, de novembro de 1965 — há exatos 60 anos.
Ao contrário do que se costuma escrever, não foi a ditadura que criou a Arena (governista) e o MDB (oposição) . O Ato 4, na verdade, impôs que somente partidos com, no mínimo, 120 deputados e 20 senadores poderiam funcionar, regra que dificultou a criação de mais de duas legendas . Na obra de 1988, Kinzo relata os desafios que o MDB enfrentou para ser fundado e para se manter ativo.
No início de 1969, o líder do partido na Câmara, Mário Covas, teve o mandato cassado por defender o colega Márcio Moreira Alves (MDB-GB), que enfrentava um processo de perda de mandato devido a um discurso crítico aos militares durante a Semana da Pátria de 1968 . Em 1970, o MDB quase se autodissolveu devido ao péssimo resultado obtido na eleição daquele ano.
A redenção da sigla veio em 1974: primeiro, com a “anticandidatura” presidencial de Ulysses Guimarães no pleito indireto de janeiro; depois, com a vitória na eleição direta para o Senado em novembro, quando o MDB conquistou 16 das 22 cadeiras em disputa. Esse número permitiu, pela primeira vez na ditadura, que o partido pudesse, por exemplo, criar comissões parlamentares de inquérito.
Em meados daquela legislatura, a ditadura fechou o Congresso (abril de 1977) e alterou novamente as regras eleitorais. Em 1978, o MDB voltou a ter um bom desempenho, embora não na mesma magnitude de 1974 . Em 1979, o regime impôs uma nova regra para desmantelar a força do MDB: conforme Kinzo descreve, a ditadura obrigou o partido a usar o “P” à frente da sigla, a fim de diminuir sua história.
De certo modo, é o que sempre tentaram militantes de esquerda que fazem política dentro das universidades, incentivando dissertações e teses em que o MDB é (des) qualificado sob a alcunha de “oposição permitida/consentida”. Trata-se de algo que o jornalismo crítico, imparcial e apartidário da Folha não deveria corroborar, muito menos reproduzir em suas páginas
Assessoria de imprensa da Executiva Nacional do MDB



