Esta é uma reflexão sobre os sessenta anos do MDB, dirigida a dois grupos raramente sobrepostos: os centristas e os jovens. E parte de uma pergunta que, creio, merece ser feita em voz alta: por que alguém da minha geração escolheria o MDB?
O Movimento Democrático Brasileiro nasceu em 1966 como frente de oposição à ditadura militar. Tratava-se de uma coalizão de forças diversas unidas pelo objetivo comum de restaurar a democracia. Tinha, à época, características que mais o assemelhavam a um movimento do que a um partido, como os conhecemos hoje; daí, o nome.
Sob a presidência de Ulysses Guimarães, o MDB liderou o processo que culminou na Assembleia Constituinte de 1988, consagrando a ordem democrática sob a qual vivemos até hoje.
Quem tem, hoje, entre vinte e trinta anos, todavia, raramente conhece a face histórica do nosso partido. Para essas pessoas, o MDB é comumente associado ao “sistema”, mais como um partido de coalizão e governabilidade, do que como um movimento de resistência e luta. E, verdade seja dita, é as duas coisas.
Afinal, a partir do momento em que o regime é estabelecido, precisa de seus guardiões.
A democracia está mantida há trinta e oito anos, algo inédito na história do Brasil. A Constituição Cidadã trazia consigo, para além de um novo sistema político e arcabouço legislativo, uma visão de país e de mundo.
Tinha a pretensão, talvez, de ser a Constituição brasileira definitiva; aquela que firmaria, de vez, os princípios humanistas universais e atemporais.
Com isso, obtivemos conquistas concretas: universalizou-se a saúde e a educação públicas, consagrou-se direitos fundamentais e criou-se as bases de um Estado de Bem-Estar que ampliou enormemente a proteção social.
Todas essas são conquistas impensáveis sem a atuação do partido no centro desse processo.
Ao longo dessas seis décadas, o MDB continuou se atualizando, buscando alinhar sua visão original às demandas dos momentos mais decisivos do país.
Formulou documentos programáticos como “Esperança e Mudança” em 1982, “Uma Ponte para o Futuro” em 2015, que viria a subsidiar o governo Michel Temer, e agora “Caminhos para o Brasil” em 2025.
Esses documentos articulam, sistematizam e divulgam os interesses dos grupos, ainda diversos, que compõem o partido.
O MDB tem, mais do que qualquer outra instituição, a legitimidade de representar o espírito vivo e perene da Constituição de 1988. O partido é, em sua essência, uma Constituinte permanente.
No entanto, a geração que eu represento não experimentou os frutos da democracia como, de fato, conquistas.
Experimentou como ponto de partida, e um ponto de partida insuficiente. Em muitos casos, nossas famílias passaram por um processo de ascensão social nas gerações anteriores, mas hoje estão estagnadas há pelo menos vinte anos.
Queremos mais que sobreviver e manter nossa situação financeira; queremos condições para prosperar e continuar elevando nosso nível de bem-estar e renda, repetindo a mobilidade que nossos pais experimentaram.
Esse horizonte, contudo, parece cada vez mais improvável. O Brasil cresce em média apenas 2% a 3% por ano há quarenta anos (sim, desde a redemocratização), o mercado de trabalho oferece poucas rotas de ascensão, e à estagnação econômica somam-se a percepção generalizada de insegurança e impunidade e um distanciamento crescente entre as instituições públicas e o cidadão comum.
Nesse cenário, é compreensível que muitos jovens busquem alternativas fora do campo político tradicional. Nas últimas eleições, uma parcela significativa dos votos totais, e ainda maior dos votos de jovens, migrou para candidatos que se posicionavam explicitamente contra o “sistema”.
Considerados os significativos problemas do país nos últimos anos, bem como a dificuldade política para solucioná-los, a insatisfação dos jovens com o sistema atual é racional e justificada. Porém, é preciso fazer uma distinção fundamental entre a insatisfação e a solução que se propõe a partir dela.
A democracia é, querendo ou não, o melhor arranjo para garantir que não sejamos subjugados por algum tirano. Seu ponto central não é eleger os melhores, mas ser capaz de remover os governos ruins sem maiores consequências.
Regimes que concentram poder tornam os erros persistentes e infinitamente mais caros; a ditadura militar brasileira é um exemplo cristalino, em que o “milagre econômico” de crescimento superior a 10% ao ano foi seguido de uma crise que só se resolveu nos anos 1990.
A ideia de que um “choque no sistema” traria alguma melhoria real é, portanto, irracional e emotiva. Cabe aos jovens usar sua esperteza e olhar para a história; cabe aos demais atores do sistema político oferecer respostas melhores.
É aqui que volto à minha pergunta inicial, e à minha resposta.
Escolhi o MDB porque acredito que a mesma vocação que levou o partido a construir a ordem democrática em 1988 é a vocação necessária para reformá-la agora.
Não se trata de nostalgia. Trata-se de reconhecer que a pluralidade do MDB, a mesma que por vezes dificultou a coesão, confere ao partido uma capacidade rara no sistema político brasileiro de dialogar com todos os setores da sociedade e construir os consensos amplos que são condição para reformas estruturais profundas.
Quando o MDB se unifica em torno de um propósito, os resultados são transformadores. Foi assim na Constituinte. Foi assim na recuperação econômica do governo Temer. Foi assim na aprovação da reforma tributária, de autoria do Presidente Baleia Rossi. E foi assim em praticamente todas as reformas de grande porte no Brasil desde a redemocratização.
O recente documento “Caminhos para o Brasil”, produzido pela Fundação Ulysses Guimarães a partir de uma escuta que envolveu mais de 8.500 pessoas em 25 estados, estrutura a agenda do partido em torno de três eixos que dialogam diretamente com as necessidades da minha geração: a consolidação da democracia, a retomada do desenvolvimento e a redução das desigualdades.
É um sinal de que o partido reconhece a urgência e tem a disposição de agir. Para que a ação se concretize, é preciso alinhar discurso, projeto de país e propostas concretas de reforma com ímpeto e vitalidade.
Não se trata de abandonar o equilíbrio que sempre nos caracterizou, mas de demonstrar que equilíbrio e urgência podem caminhar juntos.
Os sessenta anos do MDB são uma herança que precisa ser reivindicada, não apenas celebrada. Reivindicar essa herança significa escolher entre administrar a estagnação e liderar a reforma.
A juventude do partido, à qual pertenço, já fez essa escolha. E ela é inequívoca.